Descrição
Edwin Madrid, poeta equatoriano, publica pela primeira vez em língua portuguesa, com tradução de Maria Eduarda de Sousa, o seu livro de prosa poética Mordendo o Frio, publicado originalmente em 2004, Espanha. Mordendo o frio é a crónica dos trabalhos e os dias do poeta, numa América que sangra às vezes, mas que também goza e deseja, na maioria das vezes (…)
MORDENDO O FRIO DE EDWIN MADRID: UMA VIA ERÓTICA E GOZOZA
O poeta Edwin Madrid é uma das vozes mais necessárias da poesia latino-americana, ou de língua espanhola. Não falo de importante ou significativo ou outro epíteto vazio e adulador. Digo necessário, porque tal como estão as coisas hoje na literatura, e sobretudo em poesia, a abundância e a globalização convencem-nos cada vez mais do excesso e da intolerante quantidade de poemas dispensáveis, e mais, inúteis que frequentemente se agregam ao mundo. O que acontece é que escrever ou publicar um poema ou um poemário não se reveste de gesta, gesto, mito, luta, pedrada, sonho ou utopia. É nada se a poesia é nada. Bem, não é o caso de Mordendo o frio e por isso interessa e interessa-me dizer porquê o considero necessário.
Em primeiro lugar porque Mordendo o frio é uma via gozosa do erotismo, da paixão, de seus gestos e gesta, como tinha dito antes que espero da poesia e porque está tão habitado de Desejo como de pequenos relatos, relatos interruptus poderíamos dizer, como coitus interruptus, os quais, não no seu sumatório, mas na sua combinação, logram traçar o desenho de uma história de desejo, e a do sujeito que os profere nos poemas, com uma leviandade e uma rapidez que sem dúvida aplaudiria Italo Calvino, que as projetava como duas das heranças literárias do século passado (que foi o meu) para o presente (que cada vez deixa de pertencer-me mais); mas também acode ao imaginário do leitor, o que poderíamos chamar, citando um poema de Mordendo o frio: “Postal urbano de Quito comigo no fundo”; a nossa peregrinação pelas diferentes etapas do desejo e sua satisfação ou frustrações, e não poucas vezes dor, acode a visibilidade, como também a chama Calvino, fazendo que o “cinematógrafo da nossa mente” se vá povoando de imagens quitenhas, bares, bandeiras, montanhas, hotéis, urbes, carros, tudo o que se constrange já nas nossas urbes sul-americanas. (…)
(…) Mordendo o frio é a crónica dos trabalhos e os dias do poeta, numa América que sangra às vezes, mas que também goza e deseja, na maioria das vezes e, talvez ao ir em busca da concreção ou a imaginação desse Desejo, estejamos reconfigurando a nossa Outra Utopia: “A rapariga cheirava a eucalipto e do seu entrepernas saía uma fragância a mundo que retinha na ponta da minha língua por mais de uma semana”. Ser eternos e gozosos por mais de uma semana: eis o que há a fazer.
Tomás Harris
Edwin Madrid (Quito, 1961). Publicou Pavo muerto para el amor (Argentina, 2012), Lactitud cero° (Colômbia, 2005), Mordiendo el frío (Espanha, 2004), Puertas abiertas (Equador, 2001), Open Doors (EUA, 2000), Tentación del otro (Equador, 1995), Tambor sagrado y otros poemas (Equador, 1995), Caballos e iguanas (Equador,1993), Celebriedad (Equador, 1992), Enamorado de un fantasma (Equador, 1990), ¡OH! Muerte de pequeños senos de oro (Equador, 1987).
Publicou as antologias Pararrayos (Espanha, 2012), Mordiendo el frío y otros poemas (Cuba, 2010), Mordiendo el frío y otros poemas (Equador, 2009) e La búsqueda incesante (México, 2006).
Recebeu o Prémio Casa de América de Poesía Americana, 2004, Madrid, o Premio Único de Poesía Ministerio de Cultura y Patrimonio, 2013, com o seu livro Al Sur del ecuador e o Premio Escritores Ecuatorianos de los 90, entre outros. Os seus poemas aparecem em várias antologias da poesia contemporânea hispano-americana: Jinetes en el aire (RIL Editores, 2011), Poesía Latinoamericana hoy (Ediciones fósforo, 2011), Cuerpo Plural (Pre-Textos, 2010), Our Own Words: A Generation Defining Itself (MW Enterprises, 2010), Un país imaginario(Ruido Blanco, 2011), Una alegre ravedad (Difácil,2007), ZurDos (Paradiso, 2004), El turno y la transición (Siglo XXI editores, 1997).
Está traduzido em árabe, inglês, português, alemão e italiano. Foi convidado pelas universidades de Cincinnati, Zurich, Viena, Granada e tem realizado leituras de poesia na América Latina, Estados Unidos e Europa. Em 2011 foi escritor residente na Maison des Écrivains Étrangers et des Traducteurs de Saint-Nazaire, França.
Editor de Poesía completa, espanhol/inglês, de Jorge Carrera Andrade (2003), compilou a Antología poesía ecuatoriana del Siglo XX (Visor, 2007) e Línea Imaginaria, antología de la poesía ecuatoriana (LOM, 2015). Desempenha o cargo de director do Taller de Escritura Creativa da Casa de la Cultura Ecuatoriana em Quito. Dirige a coleção de poesia da editora Ediciones de la Línea Imaginaria. Al Sur del ecuador é o seu livro mais recente.









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